1 de setembro de 2015

A Arma Escarlate - Renata Ventura

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Rio de Janeiro, 1997. Hugo tem apenas 13 anos, mas vivencia a realidade de muitos adolescentes brasileiros, e em mais uma noite de violência em sua cidade natal, nosso protagonista se encontra em meio a um tiroteio, quando recebe uma misteriosa carta endereçada a ele. O remetente? A ilustríssima diretora de uma escola de magia.
A princípio tudo parece uma grande piada, mas há algo de verídico na carta, e é nessa ponta de veracidade que Hugo coloca suas esperanças no intuito de deixar pra trás a vida infernal que tem vivido. Mais do que seguir em frente, nosso bruxinho busca vingança por todas as maldades que o chefe do morro já o fez passar.
É então que o universo literalmente mágico de Renata Ventura nos é apresentado pela primeira vez. Hugo Escarlate começa a ser inserido no mundo bruxo e juntos somos levados a uma viagem sem precedentes.
Mui respeitosamente, venho convidá-lo a se unir ao corpo discente da excelentíssima escola de bruxaria Notre Dame do Korkovado. [...]

O livro é dividido em duas partes. Na primeira temos a apresentação do enredo, assim como as primeiras impressões do universo mágico de Renata Ventura. As descrições são bem feitas, e os personagens muito bem criados. A representatividade no livro é maravilhosa, vemos personagens reais de uma forma tão pouco mostrada em nossa literatura, e falo não só do emocional, mas das características físicas também. Quantas vezes você pegou um livro e viu inúmeros personagens que não tinham fisicamente nada a ver com você, ou com as pessoas a sua volta? Isso, definitivamente, não acontece em A Arma Escarlate. Além de tudo isso, vemos muito de nossa realidade mesmo em um contexto fantasioso. A autora coloca muito mais do que sonhos nessas quase 485 páginas, Renata trata de problemas que vemos e vivemos todos os dias. Não pegue esse livro esperando que haja qualquer tentativa de “tapar o sol com a peneira”, o Brasil é mostrado como ele realmente é. Com suas belezas naturais, seu potencial, mas também com seus defeitos, seu descaso.
Um fato que gostaria de ressaltar para exemplificar melhor o que mencionei acima, é que somos apresentados não só a uma, mas cinco escolas brasileiras de magia. O Brasil é imenso! Renata não esquece esse detalhe em momento algum, e nos presenteia com uma instituição em cada região do país! Nesse primeiro livro o foco principal é a escola localizada no Rio de Janeiro, correspondente a região Sudeste. Vemos os quatro estados que a compõem sendo muito bem retratados em personagens divertidos e cheios de personalidade.

A segunda parte começa e peço que peguem lencinhos, e tenham muita coragem! É a partir daí que temos mais um grande exemplo de história. Mesmo que nossos protagonistas sejam tão jovens, Renata não se abstém de mostrar mais uma realidade do nosso país. É triste, cruel, e posso dizer que desumano também, mas mais uma vez, a intenção não é fingir que não acontece. O clima aqui fica mais pesado, mas tratado de forma tão real e tão sensível, que não é possível largar o livro até que o desfecho apareça.

Quando iniciei a leitura, achei que muitas semelhanças com o universo de Harry Potter seriam inevitáveis, mas definitivamente, não foram. O livro da Renata criou vassouras próprias que alçaram voo distante das de J. K. Rowling. Ambos os livros são maravilhosos (sou muito fã do bruxinho britânico), mas cada um em suas peculiaridades. E garanto a vocês, em minha singela opinião, que não podíamos ter encontrado autora nacional melhor para fazer os nossos sonhos de receber uma carta mágica se tornarem mais próximos da realidade. o_/

Avaliação: ★★★★★ ♥


Livro no skoob.
Kisoj e até a próxima!

Aline :D

22 de julho de 2015

Condicional - Paulo Sérgio Moraes

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Típica vida paulistana, Lucas se une aos amigos para mais uma noite de balada e curtição, dessa vez, mais do que diversão, quer comemorar a tão esperada formatura. Querendo se livrar da pressão do pai, e tirar o peso da faculdade de administração das costas, o rapaz só deseja aproveitar o momento da melhor forma possível.
Perdido em um mundo de vícios e dinheiro rápido, Jota vive a vida no limite arriscando-se pelas ruas de São Paulo constantemente. Hoje, tudo que ele precisa é levantar uma boa grana.
Porém na fatídica noite de 1997, nada saiu como planejado. Em um segundo de desespero, uma arma em punho e uma curva mal feita, a vida de dois jovens são interligadas para sempre.

Em um livro com pontas bem amarradas, e escrita fluida, o autor nos leva em um enredo envolvente e intenso em diversos aspectos. A partir da premissa já citada, a história começa a se desenrolar e somos guiados de forma ágil pelas páginas desse delicioso e conturbado romance.
Em certas partes do livro conseguia me conectar totalmente à história, e entendia os sentimentos dos personagens, mesmo que não concordasse com todos os seus atos.

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Paulo Sérgio tem uma escrita gostosa, e cria momentos onde a intensidade das emoções e desejos dos personagens, são realmente nítidos e quase palpáveis. Perdi-me entre as páginas e digo com certeza que temos mais um autor nacional maravilhoso!

Ao longo do enredo, a trama é ligada por passagens de tempo bem feitas, que não deixam a história se perder em momento algum. Além disso, gostei da formação dos personagens e a forma como suas personalidades são bem descritas para os leitores.

E nem pense em pegar Condicional esperando algo clichê. Além de um romance inovador, vemos atos passíveis de acontecer dentro de nosso próprio cotidiano e um final capaz de causar taquicardia rs. Nossos protagonistas são intensos e ao mesmo tempo falhos, o que os torna tão humanos quanto nós mesmos. Surpresas ao longo da história, e uma ainda maior em seu desfecho chocante. Acredito que o único defeito tenha sido as poucas páginas, mas foi algo que não alterou em nada a história, e continuo recomendando a leitura! Além de estar ansiosa para ler outros trabalhos do autor!

Kisoj e até a próxima!
Livro no skoob.

Aline :D

12 de fevereiro de 2015

Desafio Literário 2015 - 52 Livros em um ano

Olá! Como você estão?

Hoje eu vim falar sobre um desafio que topei participar esse ano (Os créditos de quem criou e traduziu vão estar lá embaixo, ok?!). Como o título do post sugere, a proposta do desafio é que você leia 52 livros nesse ano de 2015! Para dinamizar a experiência, foram criadas 50 categorias (como podem ver na imagem abaixo), e a ideia é que você encaixe os 50 títulos (52 com a trilogia) em cada uma delas e tenha leituras diversificadas ao longo do ano!

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Confesso que era pra esse post ter saído em janeiro, mas por alguns problemas pessoais, fiquei afastada do blog. Bom... antes tarde do que nunca!

No facebook tem um grupo super legal, onde você poderá interagir com a galera que está participando, além de receber ótimas dicas para as categorias mais difíceis. Lá o pessoal fez algumas regrinhas interessantes para o desafio, regras essas que podem ou não ser seguidas, já que a ideia principal é a diversão, não a obrigação. Mas vale a pena dar uma olhada, pra se nortear um pouquinho ;)
Quanto a lista de livros, eu fiz uma aqui no computador, mas só pra auxiliar, provavelmente vou mudar um ou outro item ao longo do ano, por isso não pretendo postar pra vocês.

O desafio, pra mim, é uma forma de conhecer novos livros e sair "dos mesmos de sempre", como por exemplo, tentar novos gêneros literários que nunca li, ou não me atraem muito. Apesar de só estar postando isso agora, já comecei a preencher as categorias, e pretendo fazer um update mensal de como está sendo e o que li até o momento.
Como disse, estou com alguns problemas pessoais, então ainda não li muita coisa esse ano (além do fato de ter enfrentado uma ressaca literária terrível), mas aqui vai a lista das minhas leituras, com suas respectivas categorias.

10 de fevereiro de 2015

Porre Literário - Livros com temas fortes

Olá, galera! Como vocês estão?

Antes de entrar no assunto principal do post, queria dizer que o blog está entrando em uma "nova era". Como assim? Agora você encontra a sessão O mundo sob minhas lentes, onde posto algumas fotos de lugares e/ou coisas que gosto. E no ícone Sobre o Blog, tem a explicação pra cada item do menu, além de uma breve descrição sobre quem vos escreve e como tudo começou. Ah! E as resenhas vão voltar em novo formato! Espero que gostem :D

Voltando ao foco do dia... Vim falar sobre um evento maravilhoso que acontece aqui em São Paulo e que tive a oportunidade de participar duas vezes.
O evento tem o nome de Porre Literário, e como vocês devem imaginar, o objetivo principal é reunir uma galera, num sábado a tarde, para falar de livros! A ideia por si só já é incrível, mas a criadora de tudo isso, Karina Andrade, faz com que os temas escolhidos fluam de uma forma muito gostosa.
Já mencionei que esse é meu segundo Porre, o primeiro tinha como tema Vilões (também ameeei!), já esse tratou de algo mais pesado... Bullying, TOC, Transtorno bipolar, depressão, entre outras doenças. O objetivo é falar sobre o tema e indicar livros relacionados. O evento também conta com a parceria de algumas editoras, tornando possível assim, a doação de livros pra quem participa dos concursos culturais, ou simplesmente pra quem comparece.

Esse último Porre aconteceu no sábado (07/02), e contou com a participação do especialista Germano Polizel, psicólogo clínico, além de outras presenças importantes das editoras Dark Side e do selo Seguinte, da Cia das Letras.

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Karina começou contando a história de escritores/artistas que já sofreram com algum dos distúrbios citados, e que, na maioria dos casos, cometeu suicídio. Como mostrado na imagem, alguns exemplos foram: Silvia Plath, Edgar Allan Poe, entre outros.
Na sequência, Diana e Nati, do selo Seguinte, tomaram a palavra e falaram um pouco sobre alguns de seus livros lançados que tratam de temas mais pesados como, por exemplo, o lançamento Por Lugares Incríveis. (Que já tem filme confirmado, e com a Elle Fanning no papel principal!)
Por Lugares Incríveis
Dois jovens prestes a escolher a morte despertam um no outro a vontade de viver.
Violet Markey tinha uma vida perfeita, mas todos os seus planos deixam de fazer sentido quando ela e a irmã sofrem um acidente de carro e apenas Violet sobrevive. Sentindo-se culpada pelo que aconteceu, Violet se afasta de todos e tenta descobrir como seguir em frente. Theodore Finch é o esquisito da escola, perseguido pelos valentões e obrigado a lidar com longos períodos de depressão, o pai violento e a apatia do resto da família.
Enquanto Violet conta os dias para o fim das aulas, quando poderá ir embora da cidadezinha onde mora, Finch pesquisa diferentes métodos de suicídio e imagina se conseguiria levar algum deles adiante. Em uma dessas tentativas, ele vai parar no alto da torre da escola e, para sua surpresa, encontra Violet, também prestes a pular. Um ajuda o outro a sair dali, e essa dupla improvável se une para fazer um trabalho de geografia: visitar os lugares incríveis do estado onde moram. Nessas andanças, Finch encontra em Violet alguém com quem finalmente pode ser ele mesmo, e a garota para de contar os dias e passa a vivê-los.

 

Ambas falaram também sobre o comentadíssimo Mentirosos e finalizaram com Cartas de Amor aos Mortos (que também vai virar filme, produzido por Wyck Godfrey e Marty Bowen, mesmos produtores de A Culpa é das Estrelas).

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Tudo começa com uma tarefa para a escola: escrever uma carta para alguém que já morreu. Logo o caderno de Laurel está repleto de mensagens para Kurt Cobain, Janis Joplin, Amy Winehouse, Heath Ledger, Judy Garland, Elizabeth Bishop… apesar de ela jamais entregá-las à professora. Nessas cartas, ela analisa a história de cada uma dessas personalidades e tenta desvendar os mistérios que envolvem suas mortes. Ao mesmo tempo, conta sobre sua própria vida, como as amizades no novo colégio e seu primeiro amor: um garoto misterioso chamado Sky. Mas Laurel não pode escapar de seu passado. Só quando ela escrever a verdade sobre o que se passou com ela e com a irmã é que poderá aceitar o que aconteceu e perdoar May e a si mesma. E só quando enxergar a irmã como realmente era — encantadora e incrível, mas imperfeita como qualquer um — é que poderá seguir em frente e descobrir seu próprio caminho.

 

O representante da Dark Side, apresentou o livro A Menina Submersa, lançado em 2014 e que será relançado em formato HardCover.

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Em seguida, Ricardo Ragazzo, escritor nacional, contou um pouquinho de sua história para nós. Há quase dois anos, Ricardo descobriu ter um tumor em um dos rins, diagnosticado como maligno. Sua experiência pós cirurgia, recuperação e a nova vida, agora mais saudável, foi relatada em um livro chamado Você me viu por aí? A busca da identidade depois do câncer, que está sendo disponibilizado, semanalmente, no Wattpad. Confesso estar curiosa pra ler esse e o próximo lançamento do autor, uma distopia que leva o nome de A Cidade Banida e será lançada em junho, pela Editora Planeta.

Fora os livros já citados, houve indicação de obras de outras editoras também (que disponibilizaram exemplares para a doação), por exemplo Garota Interrompida da Susanna Kaysen, Confissões On-line da autora nacional Iris Figueiredo, A Extraordinária garota chamada Estrela do Jerry Spinelli, entre outros. Além de dicas de filmes! Preciso dizer que saí de lá com vontade de comprar todas as indicações?

IMG_20150207_183806410Clicando na foto é possível enxergar melhor ;)


Pra finalizar com vibrações positivas e deixar o clima de tristeza de lado, a Karina recomendou o incrível discurso Make good art (Faça boa arte) do Neil Gaiman. Sou simplesmente apaixonada por esse discurso! Sério, eu me diverti assistindo, além de ter uma mensagem maravilhosa por trás. Ah, e o melhor, você pode ver o vídeo na íntegra, direto no youtube!


Por fim vieram as perguntas, os concursos culturais e a seção de cosplay. Eu amei o evento, me emocionei com a resposta vencedora do concurso e me diverti com os cosplays super criativos do pessoal! Infelizmente sou bem tímida, fiquei escondida lá atrás e acabei não ganhando livros ou marcadores, mas isso não alterou nem um pouco minha opinião... Foi muuito bom!
Ah! E é tudo sem fins lucrativos, viu?! A Karina faz tudo isso apenas porque também é apaixonada por leitura!


Por hoje é isso e até, muito provavelmente, amanhã!
Beeijo <3

25 de setembro de 2014

A Lista Negra - Jennifer Brown

A resenha não contém spoiler, todos os fatos citados fazem parte da sinopse e/ou abas/orelhas do livro. Muita gente acha que pela quantidade de informações passadas, há revelação do enredo, mas não, essa é exatamente a premissa do livro, não revelei nada que a sinopse não tenha revelado.


CYMERA_20140925_094856Edição: 2
Editora: Gutenberg
Ano: 2013
Páginas: 272
Tradutor: Claudio Blanc
★★★★★


Quando algo te conquista como A lista negra fez comigo, se torna extremamente difícil falar sobre ele. A premissa do livro já era algo que me instigava, exatamente por tratar de bullying, um assunto que gosto de ler e falar sobre. É algo muito sério e que, muitas vezes, vemos ser desmerecido e menosprezado no dia-a-dia.
A autora nos leva à vida de Valerie, uma garota que, junto com o namorado Nick, sofria diversas formas de bullying, praticado pelos companheiros de escola. No intuito de extravasar toda a raiva que sentia, nossa protagonista faz uma lista com as coisas e pessoas que mais odeia. A lista negra. Nick toma parte nisso e assim os dois ficam envolvidos em listar aqueles que os desagradam. Sem ao menos notar, as coisas ficam sérias demais e num determinado dia, Nick chega à escola dizendo que vai resolver os problemas de ambos, é quando ele saca uma arma e começa a atirar naqueles que há muito estavam marcados na lista.
'Meu Deus', pensei. 'A Lista. Ele está pegando as pessoas que estavam na Lista Negra.'

Mesmo abalada por ver o próprio namorado fazer uma coisa dessa magnitude, Valerie reúne forças dentro de si e encontra a única forma viável de tentar parar aquele caos: jogando-se na frente de uma das vítimas; sendo atingida por um tiro vindo do próprio namorado.
É um livro pesado, carregado de emoções fortes e que te prende num enredo e em personagens complicadíssimos. Você vai amar e odiar, chorar e até sorrir. Jennifer nos leva a um universo tão perfeitamente real que é capaz de nos lembrar tanto de nós mesmos, quanto de pessoas ao nosso redor. A lista negra é uma daquelas obras que você quer repassar para o maior número possível de pessoas, que te faz querer que o mundo conheça e aprecie.
Os dilemas da vida de Val, além de sérios, sabem como te levar a não querer largar o livro até que vire a última página.
Deparei-me com uma ótima narrativa em primeira pessoa, que oscila entre passado e presente, e ainda possui algumas reportagens complementares - fictícias e ligadas ao enredo. Repleta de personagens complexos e bem criados, a família de Valerie também possui um papel importante no decorrer da história. A falta de compreensão já muito presente no livro, tende a ser ampliada com os acontecimentos do fatídico dia 2 de maio de 2008. A própria protagonista vive o dilema de se perdoar, tentar compreender o namorado e entender os próprios sentimentos com relação às mortes que aconteceram bem na sua frente.
O que fazer quando você deseja que alguém morra e isso acontece? E se, apesar de tudo, você ainda nutrir sentimentos pelo jovem que fez isso? Quando se sentir culpada parece a única saída, como levar a vida adiante? É impossível ler algo assim e não tentar se colocar no lugar da personagem principal, que além do perdão de seus parentes e dos colegas, tem que buscar ser perdoada por pais que perderam seus filhos e estão desolados.
Em alguns dias, chegar ao fim do dia é uma grande vitória.

Recomendo demais esse livro, foi uma das leituras mais interessantes que já fiz na vida e com certeza se tornou um dos meus preferidos no momento em que sequei a última lágrima e virei a página final.

No skoob (;
E aí, já leram? Ainda não? Deixe nos comentários!

25 de junho de 2014

Rotina

12 de Novembro de 2009
Pela primeira vez naquela semana acordara cedo, estava feliz com o feito. Ainda incrédula olhou o relógio digital na cabeceira da cama e este marcava 06h15min. Seguiu em direção ao banheiro e tomou um banho demorado, vestiu sua habitual roupa de trabalho e comeu a primeira fruta que achou na sua frente. Deu risada sozinha do costume que tinha de fazer tudo muito rápido por estar sempre atrasada. Resolveu sair de casa assim que se julgou totalmente pronta. Vestia uma calça social preta e a camisa branca, com o emblema da empresa que trabalhava.
Seria um dia cansativo, e mesmo estando alegre por ter a certeza – ou quase – de que chegaria e não teria que ouvir sermão de ninguém de seu setor, abateu sobre Julie uma tristeza repentina por não ver mais sentido naquilo tudo. Queria sentir a mesma calma de antes quando sentia o vento bagunçar seus cabelos soltos, ou mesmo, sentir o sol em seus braços e sorrir a toa. Como queria que tudo voltasse a ser como antes...
Assim que chegou à empresa, viu seus colegas e amigos reunidos em uma roda que foi desfeita com a recém chegada do chefe de seção. Olhou desconfiada para todos eles, mas seguiu para sua mesa.
Tanto quanto havia imaginado, ou mais que isso, o dia havia lhe cansado, não parecia ter sido 6 horas naquela sala, mas sim 16. Despediu-se dos amigos e em menos de cinco minutos estava no ônibus que a levaria para seu lar; mais uma vez naquele dia, sentiu-se estranha por estar sozinha, como se já não fosse habitual. Balançou a cabeça e colocou os fones no ouvido para afastar pensamentos sem importância. Notou um garoto alto a olhando com o sorriso debochado nos lábios, imaginou ser pela enorme mancha laranja em sua camisa – que estava ali por culpa de sua aptidão para desastres. Rolou os olhos e não se incomodou quando o viu comentar com os amigos algo que provavelmente dizia respeito a ela.
Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos, chegou a sua casa no horário costumeiro.
Lavou as mãos e foi preparar algo pra comer. Enquanto o fogo aquecia sua comida, que naquela noite fora apenas um macarrão instantâneo, foi trocar de roupa. Vestiu o mesmo pijama de sempre, azul claro com pontinhos brancos. Revirou os olhos para o estado daquela roupa, um buraco bem feio na altura do cotovelo. Andava tão desleixada.
Depois de comer o que, com carinho, chamava de gororoba, foi tomar um banho. A água quente batia no corpo com delicadeza; talvez o chuveiro fosse a única coisa que funcionasse decentemente no cenário deplorável que era seu apartamento.
Ainda com dó, girou a válvula depois de cinqüenta minutos debaixo do chuveiro. Saiu enrolada em uma toalha e voltou a colocar o pijama rasgado. Deitou-se, ou jogou-se, na cama e puxou as cobertas para cima de si. Foi realmente, naquela noite, sua única preocupação, já que se esqueceu até de colocar comida para o gato de estimação, e deixou-o olhando para o pote vermelho e vazio a sua frente.
Dormiu, e diferentemente dos outros dias, relaxou na cama, talvez fosse o cansaço, talvez o frio, mas realmente dormiu bem.

...


Por algum tipo de magia, e provavelmente magia negra, havia acordado tarde naquele dia. Pela quinquagésima vez estava olhando no relógio. Não acreditava que era mais de 07h00minh. Tinha que estar na faculdade em exatos 15 minutos, e sabia que, naquela altura, o feito era totalmente impossível.
Não estava acostumado a fazer tudo tão rápido, mas conseguiu, em questão de poucos minutos, fazer a higiene matinal, escolher uma roupa decente e comer a primeira fruta que encontrou.
Saiu de casa quase se esquecendo do essencial: o material para as aulas. O vestuário era uma camisa azul com algum escrito em branco, a calça era um jeans de lavagem escura, e nos pés havia um tênis preto.
Por sorte, o ônibus não demorou a chegar e em alguns longos minutos, o garoto estava entrando na sala sob o olhar revoltado do professor de história da arte. Ao contrário do que cada pessoa disposta em fileiras exatamente iguais na sala de aula queria, o horário pareceu se arrastar, e as horas dentro do centro acadêmico, pareceram dias. Após o abençoado intervalo, vieram mais algumas aulas, e lá estavam os jovens e adultos saindo apressados para suas casas, ou seus empregos, como era o caso de Joe que se despedia dos amigos com certa pressa.
O tempo no trabalho, apesar de lento, fluiu bem e sem as confusões que ultimamente eram frequentes.
A noite mal dormida lhe causou um sono anormal durante o período em que esteve fora de casa; e já no ponto de ônibus estava dando graças a Deus por estar só, e rezando para que a condução que o levaria para seu lar estivesse vazia; precisava de um tempo sozinho... Sozinho e sentado.
Sorriu ao ver, mesmo que longe, o veículo que esperava, mas aos poucos, de acordo com sua aproximação, viu chegar ao seu lado um grupo de amigos do trabalho.
“Saiu correndo”, “Não custava esperar”. Essas e outras frases entravam em seus ouvidos fazendo com que rolasse os olhos com descaso. Seus planos de ficar sozinho rolaram ladeira abaixo, só restava continuar a torcer para que ao menos conseguisse se sentar. Mais uma desilusão.
Após se sentar por duas vezes e ter que levantar para dar o lugar a um idoso, resolveu desistir de descansar as pernas e permaneceu em pé, apenas puxando os fones de ouvido da mochila e colocando no ouvido. Não deu atenção e nem se importou quando os amigos reclamaram da falta de consideração.
Mais tarde, ao longo da viagem do trabalho para a casa, deu-se conta de um dos garotos ao seu lado lhe falar algo referente a alguém que estava toda suja no ônibus. Mais uma vez ignorou. Minutos depois sentiu algo cutucando sua barriga e percebeu ser o braço de um dos amigos, olhou para ele irritado, e seguiu a direção que este olhava, só podia ser a tal garota, mas não deu a importância que o outro esperava, e voltou a se concentrar na música.
Parecendo que dali para frente era uma outra cidade, lá estava Joseph olhando o enorme engarrafamento que se formava; o que lhe causou um cansaço ainda maior. Chegou ao apartamento bem mais tarde que o costume. O porteiro do prédio já havia trocado seu turno e quem estava lá era o velho rabugento – palavras de Joe – que lhe encarava com ódio por algum motivo desconhecido.
Subiu para seu andar e assim que entrou em seu tão esperado lar, jogou-se no sofá se preocupando apenas em colocar a comida do cachorro e em tomar um banho rápido. Não viu as horas passarem, só notou que os programas da madrugada iam ficando mais e mais chatos, e logo se deixou levar pelo sono.

13 de Novembro de 2009
Enfim tinha voltado ao normal, estava atrasada. Como de costume, pegou a primeira fruta que viu e saiu comendo assim que terminara de tomar o habitual banho ultra sônico – palavras de Ellie. O dia no trabalho foi a mesma coisa, apenas pareceu, mais uma vez, mais longo que o normal. A condução estava o mesmo caos, e hoje o trânsito também não colaborava. Perguntou-se, em silêncio, o porquê daquela quantidade exagerada de carros na rua, e chegou a conclusão de que era esse o resultado de morar na maior metrópole do país e estar a véspera de um feriado prolongado. Rolou os olhos e pela primeira vez reparou nas pessoas que estavam no ônibus; na catraca, passava uma mulher segurando a mão de uma criança, que deduziu ser sua filha. Mais atrás um jovem alto de cabelos desgrenhados e aparência cansada. Percebendo que suas observações não tinham fundamento, colocou os fones de ouvido e deu atenção apenas à voz de seu cantor preferido.

...

Como nos outros dias de sua agitada vida, tinha acordado na hora certa, nem tarde, nem cedo, era o horário perfeito. Deu tempo de demorar o quanto pôde embaixo do chuveiro e ainda assim, tomar um café da manhã reforçado.
Não pelo fato de estar adiantado, mas pareceu ficar horas na sala de aula. E o serviço? Fora horrível, os segundos se arrastaram e pareceram minutos, enquanto os minutos e as horas seguiram a mesma lógica. Como era de se esperar, estava rodeado de amigos no momento em que subiu para o ônibus, mas ao contrário dos outros dias, havia lugar para se sentar, não muitos, mas havia. A mulher com uma criança sentou-se no banco próximo a porta, colocando o filho ao seu lado. Ainda restava um lugar no fim do ônibus, e ignorando a presença das companhias, seguiu pra lá e puxando o celular do bolso sentou-se ali. A garota a sua direita estava entretida demais com os fones de ouvido e com a paisagem poluída do lado de fora, que sequer notou a presença do rapaz. Joe olhou o aparelho em sua mão e notou que estava sem bateria, o que acabou, subitamente, com seu desejo de ouvir música. Rolou os olhos e acabou bufando alto, assustando a menina ao seu lado. Esta o olhou e quando ia virar ouviu a voz cansada do jovem.
- Desculpe. – E um sorriso sem graça.

...


- Tudo bem. – Sorriu em resposta.
- Vai viajar também? – Joseph tentou puxar assunto enquanto “admirava” a janela do ônibus.
Depois de poucos segundos a menina pareceu entender o porquê da pergunta e respondeu mostrando seu descaso em sair de casa.
- Definitivamente não, e você? – Imitou a pergunta apenas por educação e viu o menino balançar a cabeça negativamente.
Sem um motivo aparente, eles continuaram a conversa desinteressante, e logo estavam rindo juntos, sem se importar com os olhares que lhes eram lançados.

...


De repente, como uma espécie de milagre, a rotina tinha mudado. Todos os dias, depois do trabalho, lá estavam os dois em um telefonema extenso, que por vezes chegava as 03h00min da madrugada, falando o quão cansativo fora o dia, e a saudade que sentiam um do outro.
Alguns acreditam em Deus, outros em amor à primeira vista, poucos, nas duas opções simultaneamente. Nem eles mesmos podiam explicar o que lhes havia acontecido, só tinham a certeza de que de repente tudo havia mudado, e para melhor, com certeza.

Epílogo


Ambos estavam cansados, mas aproveitavam um ao outro como podiam. Ele não agüentava mais pensar no TCC da faculdade, ela não via a hora de ser, oficialmente, promovida na empresa.
Em um canto do apartamento, estavam um gato e um cachorro se encarando com curiosidade. Mais a frente um pote vermelho cheio de ração para gatos, e ao lado um azul com ração canina.
No centro da sala uma TV com programas chatos de uma madrugada fria, quase não tinha som. E naquele cenário de inverno ainda era possível ver um casal no sofá, ela com um pijama branco com desenhos de travesseirinhos – presente do noivo –, ele com uma calça de moletom preta e camisa branca. Ambos, apesar do cansaço, estavam rindo a toa, afinal naquele dia quem tinha preparado o café reforçado fora a menina, que acordara mais cedo que o normal, e quem mal havia comido as panquecas feitas com carinho, era ele que acordara bem mais tarde que o habitual.
E assim mais dias se seguiram. Vez ou outra, eles revezavam quem dormiria na casa de quem, e desta vez, os sorrisos bobos, telefonemas e noites acordadas, eram mais freqüentes, tudo pelo fato, de em um determinado dia, terem reparado nas pessoas a sua volta.

Universo Tácito

Universo: Do latim universu, universal, geral, todo, inteiro.
Tácito: Do latim tacitus, não expresso em palavras.

É difícil se apresentar, falar de si; é difícil se entender. É impossível colocar em palavras o que se é; é tácito. Expor seu mundo à outros requer coragem, um pouquinho de ousadia e um toque de paciência. Jogar-se ao julgamento alheio é assustador, é estranho e até um pouco ruim. Colocar seu universo particular à vista dos outros é ao mesmo tempo intenso e tranquilo, afinal, é falar do seu dia-a-dia, do que gosta e do que não gosta, do que ama e do que odeia. Mas como expressar o que sente? Como passar aos outros suas sensações e esperar que eles entendam? E nessa ânsia de partilhar sentimentos, o Universo Tácito surgiu. Uma letra, uma palavra, uma linha de cada vez.